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21:55 horas.
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23:14 horas.
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Enviado por Clarice às
22:40 horas.
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.Como foi doce acreditar, mesmo que por um breve intervalo dos meus 21 anos, que as rosas não possuem espinhos. Eu sempre me considerei cética, porém parece que o prazo de validade do meu ceticismo expirou. Uma pena, porque não consigo mais encontrar outro modelo igual. E não sei mais o que me serve melhor, o ceticismo ou a fé.
.Embora abraçar a fé signifique uma vida corajosa e honrada, ela traz consigo os sacrifícios e sofrimentos que podem ser vistos nos olhos de qualquer religioso fiel. Afinal, a fé compreende ideais e valores a serem seguidos cegamente, e eu me recuso a abandonar minha racionalidade.
.Ainda assim, o ceticismo, de braços dados com a racionalidade, nada promete. Uma vida plana e fastidiosa, isso sim.
.Certa vez, em uma conversa despretensiosa, questionei se era possível ser racional em todos os aspectos da vida. E a resposta que recebi foi um amargo e desfocado: “Você aprende que é possível, sim...”.
.Agora entendo o “aprende” contido na resposta. Aprende-se a desviar dos espinhos das rosas, mesmo que isso signifique não cheirá-las de perto.
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22:57 horas.
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Enviado por Clarice às
16:38 horas.
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Enviado por Clarice às
22:41 horas.
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.Ana, Aninha. Sentada na escada com seu livro aberto no colo, um clássico manchado achado na última prateleira de um sebo que cruzou seu caminho. A franja caída insistentemente bem na altura dos olhos não parecia um empecilho para o brilho faiscante que eles dardejavam enquanto avançavam ferozmente pelas frases bem talhadas do autor.
.Parecia a mim uma ironia que aquela menina tão delgada e contida tivesse saído daquele monstro enorme e espalhafatoso. Toda a vez que a mãe fechava aquela grande mão no pulso de Ana eu via o sofrimento silencioso daquele anjo, traído por uma leve contração no canto da boca. Queria poder arrancá-la daquela mão tirana, conduzi-la suavemente para algum lugar onde ela pudesse me contar seus pensamentos, me contar alguma coisa sobre o que a encantava tanto nos clássicos que lia, e então sorrisse com grande satisfação, o quanto quisesse.
.Mas lá estava ela, tirando o máximo de prazer daquelas linhas apertadas que a traziam histórias, lugares e sentimentos que ela nunca havia tido conhecimento. Tudo por causa daquela velha louca, aquela senil senhora que não só era incapaz de demonstrar um mínimo de afeto por ela como também impedia qualquer um de conhecê-la, prevenindo assim que outros o demonstrassem. Não sei como aquele anjo ainda conservava sua sanidade e doçura, como se fosse imune à dureza daquela vil criatura que a tratava como uma bagagem pesada.
.Ao ouvir o barulho do portão que se abria acima, o sorriso da menina desaparece instantaneamente, seus olhinhos antes perscrutadores agora se põem inquietos, as mãos finas fecham o livro sem sequer marcar a página e o jogam pela fresta aberta da mochila. Ela levanta e tira apressadamente a poeira da calça, quando a mãe finalmente atravessa o portão e lança nela um olhar penetrante de desprezo, que culmina em um cenho franzido. A mão gorda repete o gesto típico, e a menina vai sendo arrastada até o colégio.
.Pacientemente sentado no ponto de ônibus, espero Ana passar na minha frente, enquanto disfarço o olhar jogando-o sobre uma revista. Aguardo enquanto ouço o estalido seco produzido pelos passos da monstra, sempre procurando o leve passo da menina, acompanhado do farfalhar da barra do jeans.
.Quando finalmente o olhar da velha alcança um ângulo seguro para mim, arrisco virar minha cabeça na direção do anjo, que levanta o olhar na minha direção e sorri com uma discrição tal que acredito ser o único a conseguir decodificar aquele sorriso. O sorriso de Ana, Aninha, o sorriso que a cada dia cresce uma unidade imperceptível ao olho humano, mas que eu consigo claramente sentir... Sem dúvida, um dia eu a retirarei das garras daquele monstro, talvez do jeito que ela leu em algum de seus livros, sem dúvida...
.Aninha, qual será o som da sua gargalhada?
Enviado por Clarice às
22:58 horas.
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